Terça-feira, 24 de Abril de 2007

Criar laços

 

 

 

 

Olá amigos!

Ontem ao recordar “O Principezinho”, desatei a folheá-lo novamente e deparei-me com o excerto que sempre me fez parar, desde a primeira vez que o li. Esse pequeno excerto conta o seguinte: (peço a vossa maior paciência...verão que nos transmite algumas coisas importantes) 

        

Foi então que apareceu a raposa.

- Olá, bom dia! - disse a raposa.

- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.

- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.

- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...

- Sou uma raposa - disse a raposa.

- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou triste...

- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...

- AH! Então, desculpa! - disse o principezinho.

Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:

- O que é que "estar preso" quer dizer?

- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?

- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que "estar preso" quer dizer?

- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?

- Não - disse o principezinho. Ando à procura de amigos. O que é que "estar preso" quer dizer?

- É a única coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.

- Laços?

- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...

- Parece-me que estou a começar a perceber - disse o principezinho. - Sabes, há uma certa flor...tenho a impressão que estou presa a ela...

- É bem possivel - disse a raposa. - Vê-se cada coisa cá na Terra...

- OH! Mas não é da Terra! - disse o principezinho.

A raposa pareceu ficar muito intrigada.

- Então, é noutro planeta?

- É.

- E nesse tal planeta há caçadores?

- Não.

- Começo a achar-lhe alguma graça...E galinhas?

- Não.

- Não há bela sem senão...- disse a raposa.

Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:

- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo...

A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.

- Por favor...Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.

- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...

- Só conhecemos as coisas que prendemos a nós - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!

- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.

- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...

O principezinho voltou no dia seguinte.

- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...São precisos  rituais.

- O que é um ritual? - perguntou o principezinho.

- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um ritual, à quinta-feira, vão ao baile com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.

Foi assim que o principezinho prendeu a raposa. E quando chegou a hora da despedida:

- Ai! - exclamou a raposa - ai que me vou pôr a chorar...

- A culpa é tua - disse o principezinho.- Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim...

- Pois quis - disse a raposa.

- Mas agora vais-te pôr a chorar! - disse o principezinho.

- Pois vou - disse a raposa.

- Então não ganhaste nada com isso!

- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...

Depois acrescentou:

- Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

O principezinho lá foi ver as rosas outra vez.

- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. - Não há ninguém preso a vocês e vocês não estão presas a ninguém. Vocês são como a minha raposa era. Era uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e, agora, ela é única no mundo.

E as rosas ficaram bastante incomodadas.

- Vocês são bonitas, mas vazias - ainda lhes disse o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é perfeitamente igual a vocês. Mas, sózinha, vale mais do que vocês todas juntas, porque foi a que eu reguei. Porque foi a ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo.. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu vi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.

E então voltou para o pé da raposa e disse:

- Adeus...

- Adeus - disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...

- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...

- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

 Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho

 
Foi com a leitura deste “bocadinho” que vi, escrito com toda a simplicidade, o que é cativar, o que é a amizade, a procura de um amigo.
E hoje, releio e medito mais uma vez em certas palavras que mais sentido fazem quando reconheço que muitas vezes ando num “corre-corre”, e os laços criados não são alimentados. Confio, acredito, que os amigos, que para mim são pessoas muito especiais que guardo no coração, não precisam de estar permanentemente em contacto para saberem que estão comigo e que podem contar comigo. Todavia, nessa crença, não nos vamos afastando..? O ritmo de vida é outro, todos seguimos nossos caminhos, mas o “tempo” não servirá de desculpa para tudo?
É engraçada a forma como com muita subtileza esta obra revela como as pessoas que temos no coração são mesmo diferentes e especiais para nós! É o sorriso, é olhar, é o andar, é o chegar sempre atrasado, é o ter aquele humor, é o ser sempre muito distraído, é o ter aqueles olhos brilhantes, é o ter o cabelo sempre despenteado, é o cumprir sempre certos rituais... enfim, uma infinidade de traços que diferenciam aqueles que são os nossos amigos, e que não são um cidadão anónimo!
Só que o cativar, o criar laços, o construir amizades, implica tempo, paciência, entrega... Mas não estamos com isso a criar momentos de felicidade?.. Eu por mim, acho que sim! E assim vamos aprendendo a ver com o coração, a alegrar-nos com a presença, com o olhar, com a voz, com o gesto, com o silêncio.. de quem gostamos...!
E já agora, somos responsáveis por aqueles que cativamos? Serei mesmo? Gostaria de dizer que sim, mas sei que muitas vezes falho.. mas acho que ainda vou a tempo...
Façam o favor de ser felizes e de “ganhar tempo “ com o que é essencial...!

 

 

  

 

publicado por docasnasasasdodesejo às 00:43
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6 comentários:
De fantasticlife a 24 de Abril de 2007 às 00:57
k espectaculo!!! Esse livro é lindo e mais interessante é k o li quando tinha diferentes idades, e em todas elas, vi coisas diferentes, olhares diferentes sobre a mesma historia. Hoje em dia já nao se fazem coisas destas. Ah como era bom se fosse assim tão bom!
Abraço fechado
De docasnasasasdodesejo a 24 de Abril de 2007 às 01:25
Olá , obrigado pelo teu comentário, por partilhares a alegria de ter lido e vivido este livro! É realmente uma obra fantástica, de vida, de vivência e maturidade. Importante será mesmo não esquecermos de ser crianças! Td de bom!
De Elisabeth a 24 de Abril de 2007 às 14:48
Olá Caro Amigo! Todos os dias leio o seu blog, é um dos meus "rituais", algumas vezes atrevo-me a comentá-lo, mesmo que não me identifique...mas o que realmente interessa é que eu vou estar sempre aqui, a aprender, a recordar e a dar coragem para continue .
Desejo-lhe tudo de bom!
De docasnasasasdodesejo a 24 de Abril de 2007 às 15:04
Olá cara amiga, é sempre um prazer ler os seus comentários..e devo dizer-lhe que também eu já me habituei à sua boa e agradável presença! td de bom! Continue a passear por esta nossa sala comum! Beijos
De andreia a 25 de Abril de 2007 às 17:31
Rick, eu venho aqui todos os dias mas às vezes a pressa ( sempre ela!) impede-me de comentar. Quando ontem li este post não foi a pressa que me impediu. Foi mesmo porque fiquei eternecida com o post e como sempre encantada com a tua eloquência. Tocaste-me num ponto fraco porque admito o meu pouco talento, não tanto para criar laços, mas para os alimentar. Sou uma verdadeira atrasada emocional!
Curiosamente, e a vida tem destas coincidências, ontem nos meus afazeres domésticos, enquanto procurava organizar alguns espaços em casa, encontrei fotos nossas de quando nos conhecemos, naquele remoto 1991! Ha quase 16 anos pois!!!Desculpa se o desabafo é demasiado pessoal para um espaço público como este, mas com o que escreveste e com o meu passeio pela “memory lane” que as fotos permitiram, não resisto a escrever com todas as palavras que és um bom amigo e que me tornei uma pessoa melhor depois de ter conhecido. Mas os amigos têm esse condão: fazer com que o de melhor em nós venha ao de cima. E apesar da distância física, a sensação da tua presença é tão grande, que nem parece que estamos tanto tempo sem nos ver.
E sim, se nos cativas a culpa é tua! Por seres um ser humano excepcional. Um grande beijinho apertado com um grande laço.
De docasnasasasdodesejo a 25 de Abril de 2007 às 17:59
Olá amiga, agradeço tuas palavras.. mas como tu também acho que muitas vezes fico aquém das amizades, isto é, me esqueço muitas vezes de as regar, alimentar..por isso este era também um desabafo, pois tenho os amigos como tu no meu coração. E tens razão que, apesar de estarmos tanto tempo sem nos ver, pelo menos temos a grande riqueza de parecer ter sido ontem! E quanto a ti, se eu tivesse metade da tua força!! És uma pessoa fantástica, "poderosa", uma líder que anda por este mundo "encapotada". Obrigado pela tua amizade! E , nesta casa podes estar à vontade, é nossa! Beijos. Td de bom.

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