Segunda-feira, 9 de Abril de 2007

Morrer para renascer.... porque a Sida existe!

 

 

 

 

Olá amigos, aqui encetamos uma nova semana.

Ontem, questionava-me sobre a Páscoa, e sobre a forma como vamos vivendo esta época, em que as tradições e o sentido das coisas se vai perdendo. Aos poucos, é quase uma época para "os pequenos" comerem ainda mais doces, e para dar uns dias de descanso a mais a todos os que trabalham!

Mas ao ler um testemunho na revista de ontem "Notícias Magazine", várias coisas me passaram pela cabeça, incluindo este sentido associado à Páscoa de morrer para renascer. Alguns morrem quotidianamente pelos outros, muitos apenas em situação extrema se deixam morrer, e ainda existem alguns que por nada se entregam e morrem. Daí que se calhar esta Páscoa será cada vez mais para comer doces, amêndoas e ovos de chocolate!

Pelo testemunho que me tocou profundamente, percebo que existe uma pessoa que morreu para renascer, atravessou um momento díficil, que deixou sequelas e mudou toda a sua vida, mas deixou-se em determinado momento ... tocar! Vou passar a transcrever este testemunho, pois não me atrevo a resumi-lo. Sei que chocará alguns, mas este é o mundo em que vivemos. Sei que é algo extenso, agradeço a vossa paciência e interesse.

Ela diz-se chamar Patrícia de Lisboa, e conta:

"Até à uns anos levava uma vida normal, como qualquer adolescente da minha idade... Sempre gostei muito de ler. O meu sonho era ser escritora. Quando tinha 16 anos conheci um rapaz: a primeira vez que o vi foi algo de mágico. Fiquei completamente estarrecida e apaixonada. Depois de algumas saídas, sem os meus pais saberem, resolvemos passar uma noite juntos. Na altura não me apercebi, mas agora lembro-me de que ele insistia muito nisso, como se fosse a coisa mais importante do mundo. No dia 12 de Dezembro de 1998 disse aos meus pais que iria passar a noite a casa de uma colega que morava no outro lado do rio. Visto nunca ter mentido e por terem toda a confiança em mim, resolveram autorizar. E assim tive a minha primeira vez com esse rapaz. Passámos a noite numa pensão, ali para os lados do Rossio. Entreguei-me àquele que pensei ser o grande amor da minha vida.

Mas a manhã seguinte reservava-me a pior revelação da minha vida. O mundo desabou quando li o bilhete que deixou na minha mala: "Patrícia, sei que nunca mais vais querer ver-me. Quero que compreendas que não é nada de pessoal. Apenas estou a fazer aos outros aquilo que também me fizeram a mim. Apanhei sida sem ter oportunidade de me defender. E agora, quanto mais pessoas eu infectar, melhor me vou sentir. Vou um dia morrer, mas não irei sozinho.." A vida, para mim, acabou logo ali.

Só apareci em casa já a noite ia adiantada, andei por Lisboa a vaguear.. Estava desesperada? E se tinha ficado infectada? Como é que meus pais reagiriam? Nunca mais iriam ter confiança em mim. Passados alguns meses de desespero resolvi fazer o teste. Fui a um daqueles CAD (Centro de Atendimento e Diagnóstico) onde se fazem exames anónimos e gratuitos. Resultado: positivo. Julguei que morria na hora. Dirigi-me para a ponte 25 de Abril para acabar de vez com aquela angústia. Felizmente fui socorrida por uma senhora que resolveu parar o carro e impedir-me de saltar. Tentou acalmar-me e tirou-me dali. Depois de lhe ter contado a razão do meu desespero, aconselhou-me a visitar uma associação em Lisboa, direccionada para a temática da Sida: a Abraço...

 

Resolvi ligar. Atendeu-me uma senhora de voz simpática, que me disse exactamente o que tinha a fazer. No dia seguinte lá estava eu, acompanhada da minha melhor amiga. Tive uma pequena entrevista no CAP (Centro de Atendimento Psicosocial), onde tentaram acalmar-me ao mesmo tempo que faziam a avaliação do meu caso. O meu maior medo era pensar nas manifestações que o meu corpo iria evidenciar dentro de algum tempo. Toda a gente iria ficar a saber o que me acontecera e iriam rejeitar-me, como se não passasse de um bicho mau e peçonhento. Depois de uma hora de conversa, o meu estado de espírito mudou.

Estava mais calma e a perceber que, apesar de tudo, teria um futuro a partir dali, que não morreria em poucos meses como receava. Teria de tomar a tempo e horas e de forma disciplinada a medicação. Quando vi a salada de medicamentos que iria ter de tomar ia-me dando o "badagaio", mas depressa me habituei à ideia... Passei a ir todos os dias almoçar ao refeitório, juntamente com outras pessoas que viviam o mesmo problema que eu. Estava doente, estava seropositiva, mas não era nem queria ser tratada como uma coitadinha que mais dia menos dia ia morrer. A convivência com outros seropositivos ajudou-me a ter mais respeito pelos seres humanos. Não interessava a religião,.. a opção sexual, nem sequer me importava se estava a falar com um homem vestido de mulher. O que importava era que tanto eu como aquelas pessoas precisávamos, não que nos apontassem o dedo, mas sim que nos dessem apoio e carinho para ultrapassar todas as barreiras e dificuldades com que nos confrontávamos.

Três anos mais tarde descobri o verdadeiro grande amor da minha vida. Expus-lhe o meu caso, e dei-lhe uma semana para pensar se queria, ou não, assumir uma relação comigo, sendo eu seropositiva. Não foi preciso tanto tempo, porque nessa mesma noite ele pediu-me em casamento. Não sei se chorei mais de tristeza no dia em que descobri que estava seropositiva ou de alegria no dia em que ele me pediu em casamento. Hoje temos uma criança linda, felizmente saudável. Com o meu marido uso sempre preservativo, para o proteger. Nunca na vida iria querer fazer a outra pessoa aquilo que me fizeram a mim. Naquela altura os meus sonhos foram engolidos e apagados por um grande desespero. Mas hoje acredito num futuro melhor para mim e para a minha família.

Quero agradecer muito à senhora que naquele dia me impediu de acabar com a minha vida e também agradecer do fundo do coração à Abraço por toda a ajuda que me deu nestes anos todos. Conforme o slogan da associação : "porque a Sida existe, ajude-nos a ajudar.." Não custa nada dar um pouco de nós em prol da felicidade dos outros."

Sei que este testemunho da Patricia Fernandes de Lisboa, mesmo com alguns pequenos cortes, é muito extenso. Desculpem maçá-los, mas a vida é também assim, por vezes é preciso tempo para estar atento, para observar, para ouvir... senão passa-nos ao lado.

Esta mulher é para mim uma heroína, a vida pregou-lhe uma valente rasteira, mas com ajuda de alguém que surgiu no momento certo, soube dar uma oportunidade a si própria e renascer para vida! É uma história bem real de triunfo e também do pior que nós seres humanos, somos capazes de fazer... mas importante é que a vida não nos passe mesmo ao lado...mesmo que tenhamos que morrer a cada dia...

Obrigado Patrícia, onde quer que estejas, pela lição de vida que me deste e por a partilhares com todos nós!

Façam o favor de ser felizes!

 

publicado por docasnasasasdodesejo às 00:42
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6 comentários:
De Anónimo a 10 de Abril de 2007 às 21:05
Olá RickY
Por que o mundo tem destas coisas, eu li precisamente o mesmo artigo quando fazia a viagem de regresso da Suíça e ao folhear descontraidamente a revista, como quem não quer ler coisa alguma, fiquei presa a este testemunho arrepiante. Fiquei esmagada pela sinceridade, pela dádiva gratuita de uma lição de vida, com um preço tão alto. Lá nas alturas, pensei que aquele era o sítio certo para ler tal história, porque estava mais perto de Deus e da sua sabedoria, A expressão que diz que :" Deus escreve certo por linhas tortas" ganha um novo sentido. Mas, por vezes, é preciso ter a sorte de encontrar o tal anjo da guarda que nos dá a mão, o ombro, a alma e nos guia no caminho certo.
Todos nós podemos certo anjos da guarda de alguém, como aquela gentil senhora soube sê-lo para a Patrícia. É só preciso estarmos atentos e darmo-nos sem reservas.
Um grande beijinho da Zé
De R a 11 de Abril de 2007 às 01:47
Olá, amiga,td bem? que dizer de tão grande testemunho...apenas que me fez meditar muito, e pensar na riqueza da vida e poder aprender com lições como esta..
Td de bom! Beijos
De lucia a 23 de Janeiro de 2009 às 19:06
este é daques testumunhas que dao muito que pensar.... eu tenho apenas 17 anos e nao me consigu imaginar numa situação dessas. a patricia é uma grande mulher, sem duvida.

beijinhos
De fmaio a 5 de Julho de 2009 às 20:41
um tipico exemplo do que acontece com uma grande percentagem dos jovens nos dias que correm, expecialmente com universitarios. quanto ao jovem que pegou o hiv é um completo ignorante , farrapo da sociedade que so resta lamentar o fez. Para quem ler este blog , pensem duas vezes antes de ter relações com um desconhecido , especialmente pessoas que estao a começar a sua vida sexual. saudaçoes
De sandra pinto a 17 de Maio de 2010 às 09:04
ola sou a sandra acabei de ler esta pagina e a unica coisa que digo é: eata é uma grande licão de vida para todos os que apontam o dedo aos seropositivos. Eles não são diferentes de ninguem simplesmente têm uma doença incoravel. Ajude hoje eu amanha tu.....
De yara a 22 de Março de 2011 às 22:01
Olá. Gostava de deixar aqui uma mensagem após ler aquele testemunho que marca toda a gente que o lê. Sinceramente fiquei chocada, indignada, completamente parva a olhar para o pc. Talvez seja normal andar para aí com tamanho egoisto dentro de si, como o rapazinho que a infectou. Cada vez mais o ser humano me desilude, este é um dos exemplos que o prova. espero que um dia isto tudo mude, pois ninguem merece repito NINGUÉM merece ser descriminado por tamanha barbaridade.

nota: não sou seropositiva, no entanto conheço pessoas que tem e que comunico frequentemente. e desde que descobri amei-os mais pela coragem que transmitem.

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